(história anterior)
A pandemia afectou Márcia mais do que ela alguma vez seria capaz de admitir. Não sei se foi devido ao susto que eu apanhei em jovem, quando tive quase a morrer com uma pneumonia, mas fiquei com a ideia de que ela não queria que se corresse risco absolutamente nenhum de o vírus entrar lá em casa. E a realidade foi que todas as medidas que ela tomou, o andarmos sempre vestidas com fatos de látex e máscaras sempre que entrávamos em casa, acabaram por ter o seu resultado, pois nem eu nem Márcia alguma vez demos conta de ficarmos doentes – pelo menos de Coronavírus. Quanto ao resto… apercebi-me que a minha marida estava a ficar obcecada com a protecção do nosso lar. Ainda quis que ela procurasse ajuda para isso, mas foi o mesmo que falar para uma parede. Por isso vi com alívio as medidas no país serem aligeiradas a partir do momento que o COVID-19 deixou de ser considerado uma pandemia… apesar de, em nossa casa, ter demorado mais algum tempo até os fatos de látex e as máscaras de gás deixarem de ser obrigatórias.
Chegou um dia da Primavera de 2023 em que fui eu a dizer “basta”. A nossa empresa ainda assentava um bocado no teletrabalho mas Márcia ia muitas vezes ao escritório; quando vinha de lá, ela não me confessava mas para mim, que a conhecia como ninguém, apercebi-me que ela estava saturada, estoirada e a precisar de uma mudança. Assim, nessa quinta-feira, pela primeira vez, fui eu a tomar a iniciativa.
- Amor, arruma o teu saco de viagem. Vamos dar uma volta. – declarei, assim que a vi novamente com o semblante carregado.
- Não sejas parva, tenho muito que fazer, – começou ela, como sempre – tenho de tratar das tabelas de…
- Não, não tens! – agarrei-lhe nas mãos – Passámos por uma pandemia, voltámos ao trabalho e tu nunca descansaste nem paraste um momento. Estes três dias vais parar e vais aproveitar, tu e eu vamos por essa estrada fora passear.
- Amor, eu não…
Calei-a com um dedo por cima dos lábios.
- Vais arrumar as coisas e aprontar-te para sairmos daqui às 8h. É fim-de-semana prolongado, e tu e eu vamos passear, que há muito tempo que não o fazemos.
Vendo-me tão determinada, Márcia pareceu ceder.
- Pronto, OK, talvez tenhas razão… de facto uma paragenzinha dava algum jeito para deixar de pensar em merdas. OK, pode ser. E para onde vamos, pode-se saber?
Encolhi os ombros.
- Onde a estrada nos levar.