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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A viagem (parte 2)

 

continuação...

O dia seguinte, domingo, trouxe um dia mais cinzento, com um céu carregado de nuvens e algo ventoso. Voltei ao meu vestido azul “de grávida”, como Márcia lhes chamava (a realidade é que, um bocado farta de andar sempre com fatos ou roupas apertadas, durante aquela viagem tinha preferido roupas largas, vestidos compridos até aos pés e sapatilhas), enquanto ela continuava com o seu visual rockeiro de blusão de cabedal, t-shirt, jeans rasgados e botas de cabedal pela coxa.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A viagem (parte 1)

 

(história anterior)

A pandemia afectou Márcia mais do que ela alguma vez seria capaz de admitir. Não sei se foi devido ao susto que eu apanhei em jovem, quando tive quase a morrer com uma pneumonia, mas fiquei com a ideia de que ela não queria que se corresse risco absolutamente nenhum de o vírus entrar lá em casa. E a realidade foi que todas as medidas que ela tomou, o andarmos sempre vestidas com fatos de látex e máscaras sempre que entrávamos em casa, acabaram por ter o seu resultado, pois nem eu nem Márcia alguma vez demos conta de ficarmos doentes – pelo menos de Coronavírus. Quanto ao resto… apercebi-me que a minha marida estava a ficar obcecada com a protecção do nosso lar. Ainda quis que ela procurasse ajuda para isso, mas foi o mesmo que falar para uma parede. Por isso vi com alívio as medidas no país serem aligeiradas a partir do momento que o COVID-19 deixou de ser considerado uma pandemia… apesar de, em nossa casa, ter demorado mais algum tempo até os fatos de látex e as máscaras de gás deixarem de ser obrigatórias.

Chegou um dia da Primavera de 2023 em que fui eu a dizer “basta”. A nossa empresa ainda assentava um bocado no teletrabalho mas Márcia ia muitas vezes ao escritório; quando vinha de lá, ela não me confessava mas para mim, que a conhecia como ninguém, apercebi-me que ela estava saturada, estoirada e a precisar de uma mudança. Assim, nessa quinta-feira, pela primeira vez, fui eu a tomar a iniciativa.

- Amor, arruma o teu saco de viagem. Vamos dar uma volta. – declarei, assim que a vi novamente com o semblante carregado.

- Não sejas parva, tenho muito que fazer, – começou ela, como sempre – tenho de tratar das tabelas de…

- Não, não tens! – agarrei-lhe nas mãos – Passámos por uma pandemia, voltámos ao trabalho e tu nunca descansaste nem paraste um momento. Estes três dias vais parar e vais aproveitar, tu e eu vamos por essa estrada fora passear.

- Amor, eu não…

Calei-a com um dedo por cima dos lábios.

- Vais arrumar as coisas e aprontar-te para sairmos daqui às 8h. É fim-de-semana prolongado, e tu e eu vamos passear, que há muito tempo que não o fazemos.

Vendo-me tão determinada, Márcia pareceu ceder.

- Pronto, OK, talvez tenhas razão… de facto uma paragenzinha dava algum jeito para deixar de pensar em merdas. OK, pode ser. E para onde vamos, pode-se saber?

Encolhi os ombros.

- Onde a estrada nos levar.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Confinada



Fechei a porta, entrei no hall de entrada da nossa casa e pousei a mala do portátil e o saco com documentos do trabalho no chão. A empresa onde eu e Márcia trabalhávamos havia aderido às medidas de contenção do coronavírus, pelo que tínhamos sido aconselhadas a levar as ferramentas de trabalho para nossas casas, com vista a podermos fazer algum trabalho por lá. Suspirei de cansaço, despi o casaco do meu fato e pendurei-o no bengaleiro de entrada; depois, descalcei as sabrinas e troquei-as pelos meus chinelos cor-de-rosa. Depois dirigi-me para a porta de acesso ao interior da casa e quedei-me ao ver o papel colado nela e a mensagem escrita:

“DEVIDO À EPIDEMIA DO NOVO CORONAVÍRUS, A PARTIR DESTE PONTO TODOS OS VISITANTES TERÃO DE ENVERGAR UM FATO HAZMAT. OBRIGADO, FAMÍLIA SEMEDO”

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Lição repetida

(história anterior)

A minha vida ao lado de Márcia cada vez mais se assemelhava a um conto de fadas infindável. Todos os dias ela arranjava maneira de me sentir uma princesa, sempre a dar-me um miminho, um carinho, uma prendinha por mais pequenina que fosse. Creio que já o disse, mas já não conseguia imaginar a minha vida sem aquela autêntica Amazona, dura com todos menos comigo (excepto na nossa intimidade!). Tudo era perfeito na minha vida.
Tudo… ou quase tudo. A questão do nosso vizinho homofóbico, apesar de aparentemente ter sido atacada por Márcia1, nunca ficou definitivamente resolvida. De vez em quando, lá nos deparávamos com um pneu furado num dos nossos carros (quando não era nos dois), um papelinho na caixa do correio a apelidar-nos de “fufas” ou um vidro partido com uma pedra e uma mensagem “Desapareçam ou morram”. Claro está que isto me deixava um nadinha assustada e falei à minha marida de que se devia fazer alguma coisa, arranjar uma providência cautelar ou assim, mas ela respondia sempre que era difícil provar que o autor daqueles actos de vandalismos era o nosso vizinho, uma vez que nunca havia testemunhas… Acabei por me conformar com aquela mancha no meu paraíso, até porque não havia nada que eu pudesse fazer.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Bodas de madeira (parte 2)

continuação...


O dia passou-se no passeio pela vila e pelas imediações, a vermos as paisagens. A zona de facto era bastante bonita e, na Primavera, com todo aquele verde, ficava ainda mais bela. Subimos ao castelo, andámos a passear pelas ruas estreitas da parte mais antiga, almoçámos num dos restaurantes da parte nova, descemos ao cais e ainda pensámos em ir chapinhar na água, mas o ventinho e a temperatura não convidavam a isso. Ainda desafiei Márcia para irmos dar uma volta de carro até às Minas de São Domingos, mas ela disse que não podia ser, que o Sol ia-se pôr não tardava… e disse uma frase que me deixou gelada:
- Daqui a bocado vem aí um amigo meu de faculdade jantar connosco.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Bodas de madeira (parte 1)

(história anterior)

Cinco anos passam num instante. Parecia impossível que já havia passado tanto tempo desde que Márcia e eu havíamos dado o nó. E no entanto haviam passado de facto cinco anos desde esse dia, cinco anos cheios de amor, carinho, romance e paixão, mas também cheios de sexo, sexo e mais sexo, com aquela ruiva infernal a fazer de mim a sua puta – e a fazer-me suplicar por mais.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A gata e a rata

 (história anterior)

Vou ter de confessar algo: ter sido forçada a andar de cinto de castidade não me fez bem nenhum. Pode parecer algo ridículo, mas ter passado semanas em abstinência sexual começou a fazer-me sentir desesperada e algo sedenta de sexo, coisa que eu nunca fora na vida. Mas eu tornara-me dependente de Márcia e de tudo o que ela me fazia, e ver-me privada disso, dos seus estímulos, das suas “torturas”, dos seus abusos, para mim era demais. Todavia, ela havia-me imposto aquela abstinência com um motivo, o de me obrigar a alimentar-me decentemente, e eu eventualmente acabei por o cumprir a ver se voltava a ser a sua puta.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Homofobia

(história anterior)

O Sr. Américo é uma pessoa idosa de 60 e muitos anos de idade, que habita na casa ao lado da nossa. Todavia, quem olhar para ele não lhe dá essa idade, pois ainda é uma pessoa cheia de vida e força. Infelizmente tem um feitio extremamente amargo: do pouco que se foi sabendo sobre ele (pois ele não é uma pessoa sociável), ele nunca casou, apesar de ter um filho algures que não lhe liga nenhuma – ou vice-versa – e isso reflecte-se nas suas interacções com a vizinhança. Nunca ninguém o ouviu dizer um bom-dia, meter conversa com alguém, nada. E ele tem ainda outro enorme defeito: é homofóbico. Por diversas vezes já me mandou bocas ou insultos a mim ou a Márcia, especialmente quando nos vê juntas. Por norma eu ignoro ou viro a cara para o lado, mas a minha marida, como não é de se ficar, acaba por responder à letra.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Problema de nutrição

(história anterior)

- Andi, abre a boca.
- Amor, não quero, por favor… – gemi.
Márcia suspirou, sentando-se a meu lado e colocando o prato de caldo verde em cima da mesa.
- Deixa-te de merdas. Tu estás com uma cara pavorosa, andas a alimentar-te que é uma desgraça.
- Tu sabes porquê, Márcia.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

No meio de nenhures

 (história anterior)

- Márcia, ainda aqui está?
- Sim, Sr. Monteiro, estou a ver se despacho este projecto. Calhava entregá-lo quanto antes, os clientes estão algo chatos…
- Ah, percebo. – uma pausa – Que é feito da Andrea?
- Já saiu, disse-lhe para ir para casa, isto não é nada com que ela me possa ajudar de qualquer maneira…
- Ah, OK. Tente não queimar muitas pestanas, sim, Márcia? Não queira ter uma vida como a minha, cheia de úlceras e divórcios… nenhum trabalho é mais importante que a nossa vida.
Márcia riu-se.
- Não se preocupe, Sr. Monteiro, daqui a bocadinho já me vou embora.
- OK, OK. Bom fim-de-semana, Márcia.
- Bom fim-de-semana, senhor.
Ouviu-se uma porta a bater; após uns segundos de espera, Márcia baixou a cabeça e olhou para os pés da secretária.
- Pronto, querida, estamos a sós.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O despedimento (parte 2)

(continuação...)

 Saímos do restaurante já depois das 14h, ambas bem fartas de peixe. Depois de uma refeição daquelas, pensei que fôssemos dar um passeio para abater (ou então irmos para casa e fazermos algum “exercício físico”). Todavia, assim que me sentei no banco do pendura, Márcia colocou-me uma venda nos olhos.
- Amor, o que estás a fazer? – perguntei-lhe.
- A tua surpresa começa agora. E não quero que vejas para onde vamos.
Pensei em bombardeá-la com perguntas mas sabia que ela nunca responderia. Por isso deixei-me ir.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O despedimento (parte 1)


A porta da rua abriu-se, sinal de que Márcia havia chegado. Todavia, não consegui arranjar ânimo para me levantar, correr para ela e abraçá-la fortemente – algo de que eu estava desesperadamente necessitada, depois daquele dia de merda. Só de pensar nisso outra vez comecei a sentir mais lágrimas a aparecer… Fiz um esforço e compus-me, tentando disfarçar; no momento seguinte, Márcia aparecia-me à frente.
- Olá, querida!
- Olá, amor… – respondi, num murmúrio.
 O sorriso que lhe iluminava a cara desapareceu imediatamente, assim que ela reparou na minha cara tristonha e nas lágrimas que a inundavam. Logo a seguir, ela sentou-se a meu lado, com preocupação na cara.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Demasiado tempo na Internet

(história anterior)

“ola bonita”
Sorri ao ler a mensagem de Sanjeev. Rapidamente os meus dedos teclaram um “olá, querido”. Então, a minha atenção regressou à minha quinta online.
Sim, eu estava viciada no Farmville. Era uma boa maneira de passar o tempo depois do trabalho, enquanto eu aguardava que Márcia chegasse do seu emprego. Achava divertido tomar conta daquela quinta virtual enquanto interagia com outra malta, de outros continentes, pessoas de quem eu nunca havia antes ouvido falar. Com o tempo, comecei a falar com alguns dos meus “vizinhos” a respeito de coisas corriqueiras, do dia-a-dia. Um deles chamou-me a atenção, principalmente porque a primeira coisa que me disse foi “és bonita” – sim, eu fraquejo sempre que me elogiam. O seu nome era Sanjeev Sidhu e era da India. Ele trabalhava como fotógrafo, e mais de uma vez ele dissera que gostava de se encontrar comigo e fazer uma sessão fotográfica comigo. Fiquei lisonjeada (quem não ficaria?) mas, mais de uma vez, eu lhe falei da minha relação com Márcia – e, claro está, mencionei a disposição azeda da minha marida em relação a mim e outras pessoas. Obviamente, ele nunca me levou a sério.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Apanhada sozinha

(história anterior)

Estava completamente sozinha em casa. Márcia havia ligado antes de jantar, avisando que ia fazer horas extra e não sabia a que horas iria chegar a casa. Assim, fui até à cozinha e aqueci qualquer coisa no micro-ondas. Lá fora estava a chover copiosamente, um tempo tenebroso. Sentei-me no sofá a ver o que passava na TV, mas a tentar não adormecer.
Então uma ideia atravessou-me a mente. Eu estava sozinha em casa, era ainda demasiado cedo para me ir deitar… porque não divertir-me um bocadinho a solo? Sabia que Márcia, se descobrisse, ficaria chateada… mas eu estava tão aborrecida, tão entediada – e talvez esperasse que ela, de facto, me descobrisse – que acabei por subir os degraus para o quarto.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O casamento (parte 2)


É estranho, mas a chegada da manhã fez-me entrar num estado tal que não me recordo dos detalhes de preparação do casamento, o vestir o vestido, o arranjar o cabelo, a maquilhagem… Era como se estivesse sob o efeito de qualquer substância, silenciosa, cooperativa ao máximo, quase como uma marioneta…
Acho que “acordei” apenas quando o fotógrafo saiu do quarto. Dei por mim a pensar “está quase… só mais um par de horas” e sentei-me na cama, tentando acalmar-me, enquanto sentia o coração a bater que nem doido.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O casamento (parte 1)

- Andrea, não devias ter lá ido! – gritou Márcia – É pedir-te demasiado que te comportes como deve ser?!
- Amor, já te pedi desculpa. – respondi, de voz embargada – É que… é que simplesmente aconteceu.
- “Simplesmente aconteceu”… como raio é que tu “simplesmente” beijas um gajo?
Baixei os olhos. Sabia que ela estava certa, mas isso não me fazia sentir melhor. Eu havia-a traído, apesar de ter sido apenas um beijo. Claro que Márcia iria dizer “nunca é apenas um beijo!”… e dei por mim a achar que ela tinha razão.
Eu nem sabia porque tinha saído sem a minha namorada. Ela teve de ficar a dormir naquela noite, e eu podia ter ficado a descansar com ela, mas estava com tanta vontade de sair e divertir-me que desafiei alguns amigos a irmos a uma discoteca não muito longe de Corroios. Assim que falei nisso à Márcia, reparei que ela ficou chateada, mas tentou escondê-lo de mim… mesmo assim fui lá, bebi demais e acabei a dançar com um gajo qualquer, a roçar-me nele, e, eventualmente, a dar-lhe um enorme linguado, até que os meus amigos repararam que eu não estava nos meus melhores dias e me levaram até casa.
- Tens razão, Márcia. – disse, com uma lágrima a escorrer-me à cara abaixo – Eu… eu não sei o que me passou pela cabeça, eu… eu estava bêbada, fui estúpida…
- Pois foste. – ela interrompeu-me.
- Mas eu prometo-te, amor… não volta a acontecer.
- Tens toda a razão. Não vai voltar a acontecer.
Levantei o meu olhar para a encarar. O seu tom de voz tinha sido estranho.
- O que queres dizer?
Ela agarrou-me pelo antebraço com força, de tal forma que senti os seus dedos a enterrarem-se na minha carne; depois, arrastou-me para o nosso quarto e atirou-me para cima da cama.
- Porque, agora, minha namoradinha, eu vou-te violar; e, no deste sábado a oito, vais-te casar comigo.
O meu coração pareceu parar.
- Casar…?