segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A aposta (parte 1)

(história anterior)

- Estás a ver? – regozijei-me assim que entrámos em casa – Estavas tu cheia de medo deles… A primeira já cá mora!
- OK, OK, amor, tinhas razão. – Ana suspirou, apesar de também estar feliz – Mas estava à espera de mais dificuldades. E continuo a dizer que o arranque do campeonato vai ser durinho.
- Não digo o contrário, atenção! Mas eu tenho confiança na rapaziada que cá temos este ano vai dar para as encomendas e para mais uma vitória.
A minha princesa parou no meio da sala, ficando com um sorriso malandro.
- Quanta confiança tens tu? – perguntou.
- Como assim? – fiz uma pausa – Queres fazer uma aposta?
Ana assentiu.
- Amor da minha vida, sabes perfeitamente que confio em ti e acredito no que dizes e na confiança que tens no teu plantel. Mas… quero ver o quão grande é ela.
- OK. – encolhi os ombros – Que tens em mente?
- Bom, como sabes, as minhas irmãs de França vêm cá no primeiro fim-de-semana de Setembro. E… bom, obviamente que vamos andar juntas de um lado para o outro. Bom… – ela ficou a pensar um momento – Se conseguires quatro vitórias nas quatro primeiras jornadas, podes sair comigo e com as minhas manas, andar connosco. Se não conseguires, não sais.
Encolhi os ombros. Apesar de eu sempre ter alguma curiosidade de ver como seriam as quatro irmãs Karabastos em conjunto em contexto dito normal, não era coisa que me fizesse perder o sono e dar uma motivação extra para os rapazes terem um arranque fulgurante de época. Ana viu a indiferença na minha cara assim que lhe apertei a mão e pareceu pensar mais um pouco.
- Pronto, OK: se não conseguires, podes sair connosco à mesma. Mas vestido de mulher. Mas mulher à séria, nada de seres matrafona, daquelas que se vê no Carnaval: é para andares toda xã-nã-nã como uma de nós… e sabes que gostamos de andar todas produzidas.
Admito: senti um suor bem gelado atravessar-me a espinha. Larguei-lhe logo a mão.
- Cabra! – protestei, meio a brincar meio a sério – A mudar os termos da aposta a meio? Isso é ilegal!
- OK, é justo… – Ana baixou a cabeça em sinal de derrota – Se ganhares, podes ir-nos ao cu a todas. Todas.
Imediatamente a minha mão voltou a agarrar a dela. Era óbvio que a parte de me vestir de mulher não me agradava, mas a perspectiva de comer os rabos de todas as quatro manas Karabastos era demasiado aliciante para deixar passar.
- És uma negociadora diabólica! Está apostado. Prepara o lubrificante.
E o que aconteceu, como toda a gente sabe, foi algo digno de Hollywood. Depois de três vitórias em três jogos (e de muitas provocações da minha parte à minha esposa), o quarto jogo foi disputado no Norte e era de grau de dificuldade elevado; e depois de uma primeira parte sem golos, no segundo tempo sofremos um autogolo ridículo (tão ridículo que nem sequer pode haver suspeita de ter sido propositado) e apenas conseguimos empatar de penalty. Até ao fim do jogo, o massacre à baliza adversária foi constante; todavia não conseguimos dar a volta e a partida terminou empatada. Na flash-interview e na conferência de imprensa, ninguém percebeu porque estava eu com cara de enterro…

- Vá, meu príncipe, fecha os olhos.
Suspirou e obedeci. Aquela sessão de tortura já ia longa e não havia meio de acabar. Senti uma espécie de cotonete começar a esfregar uma das minhas pálpebras, enquanto a meu lado só se ouviam risinhos trocistas.
- Parem de se rir! – exclamou Ana para as irmãs – Não perturbem mais a minha adorada Carla!
- “Carla”? Sempre pensei que me fosses apelidar de “Amanda” … – resmunguei em surdina.
- Precisas de ajuda? – riu-se Amália – Sabes que tenho um enorme prazer em transformar homens em mulheres…
- Deixa estar, eu consigo desenrascar-me sozinha. – comentou a minha esposa.
- A sério, querida, olha que não me importava nada de te voltar a ajudar… – Andreia soltou uma gargalhada.
- Sim, mas tu e Helena já se ocuparam das pernas com bastante entusiasmo. – foi a resposta lacónica, dada enquanto Ana mudava de pálpebra.
Ainda me ardiam as pernas de a minha ex-mulher/cunhada e a esposa terem-se voluntariado para me fazerem a depilação das minhas partes cabeludas, já que disfarçá-los com meias ou roupa opaca era uma hipótese proibida; e elas haviam-se divertido a arrancar-me todos os meus pêlos das pernas, barriga e alguns da zona púbica com recurso a tiras de cera quente. Aquilo correra tão bem que eu tivera de ser preso à cama para que as meninas o pudessem fazer sem interrupções… Naquele momento as minhas pernas (e o meu baixo-ventre, previamente coberto por umas cuecas ou cinta elástica creme, para disfarçar e prevenir qualquer vulto suspeito) haviam sido enfiadas dentro de uns collants magenta, um pouco semelhantes ao vestido semi-transparente preto em que haviam enfiado o meu corpo após este ter sido disfarçado e preparado através de enchumaços e adesivos e sei lá que mais artifícios; e Ângela já tinha colocado ao pé de mim os sapatos pretos de salto alto que me estavam destinados para aquela noite – comigo a pensar que, com o meu tornozelo lixado, aquilo tinha tudo para correr bem… A irmã mais nova daquela irmandade entretanto entretinha-se a pintar-me as unhas de cor-de-rosa, num tom semelhante ao do vestido.
- Se eu pudesse viajar no tempo, recuava até ao início do mês e impedia-me de aceitar o raio da aposta… – lamentei-me.
- Oh, deixa-te de lamúrias, vais ver que te vais divertir. – comentou Ana, já ocupada a pintar-me a cara com aqueles pós e tintas e sei lá o quê mais… – Confias em mim, certo?
- Hmm. Sim. – respondi, tentando mover a cara o menos possível.
- Então pronto. Da mesma maneira que me proteges de embaraços quando me levas a eventos BDSM, eu vou assegurar-me de que nada de vergonhoso te vai acontecer.
- É nas tuas irmãs é que eu não tenho confiança… – acrescentei, sem a ter ouvido.
Como resposta, todas as meninas presentes naquele espaço se riram – todas excepto Ana, que sorriu fracamente como quem diz “estou-te a perceber”. Então ela dirigiu-se a um móvel ali à beira e abriu uma gaveta, de onde retirou uma cabeleira morena que colocou na minha cabeça, arranjando uma qualquer forma de a mesma ficar fixa e não descair – mais tarde eu experimentei mexer-lhe e confirmei que estava bem presa.
- Fecha os olhos. – comandou ela.
Um bocado a medo, fi-lo; e senti uma escova passar-me pelas pestanas, presumivelmente a pintá-las e/ou a alongá-las.
- Abre-os.
Voltei a obedecer e vi Ana a segurar num lápis preto e a debruçar-se sobre mim quase como se fosse espetar-mo no olho! Recuei instintivamente.
- Que vais fazer?!
- Pára quieto, amor, ainda não acabei… – foi a resposta seca.
Voltei a ficar em posição e desta vez não reagi quando a minha esposa me desenhou um risco preto na margem dos olhos. Confesso que aquilo me meteu uma enorme impressão: estava à espera de ficar com o lápis cravado na menina da vista!
- Vá, faz biquinho. Faz de conta que vais tirar uma duck selfie, aquelas coisas que tu tanto gostas. – e Ana sorriu, sempre a mexer em coisas.
Suspirei e meti os lábios a jeito, pois eu sabia o que vinha aí, e mais uma vez não reagi enquanto Ana me pintou os lábios de cor-de-rosa. Assim que terminou, Ana deu uns passos atrás, como que a contemplar a sua obra.
- E que tal? – perguntou, olhando para as irmãs.
Olhei para todas as mulheres que ali estavam: todas elas estavam de smartphone em punho, a tirar-me fotografias, enquanto se riam do meu aspecto.
- A menina Carla está muito gira! – comentou Amélia.
- Numa discoteca davas para enganar bem uns quantos… – acrescentou Ângela, sempre com aquela sua pronúncia carregadíssima.
- Olá, borracho! – assobiou Helena.
Andreia não respondeu mas levantou o polegar em aprovação. E apenas quando Ana me meteu um espelho à frente é que pude ver o meu visual… e percebi o que Ângela dizia: de facto, parecia que estava a olhar para uma pessoa totalmente diferente! Do outro lado do espelho estava uma morena de longo cabelo ondulado, quase com ar de boneca, um peito razoável, cintura apertada e ancas largas, um corpo que passava bem por feminino…
- Mas… mas… – custava-me a crer que aquela “rapariga” que me olhava do outro lado do espelho era eu – Qu-que corpo é este? Que me fizeste?!
- Amor da minha vida, não eras tu que gostava de perceber os nossos toques de “magia” e de como conseguimos ter o aspecto que quisermos? Esta é uma das maneiras… – e Ana riu-se, sendo secundada pelas irmãs – Bom, agora que a minha menina já está pronta para a noite, vou-me aprontar também. Nada de maluquices com a nossa companheira, OK? – depois de ter olhado para as irmãs, saiu dali.
Houve muitos cochichos entre elas enquanto Ana esteve ausente. Deixei-as e aproveitei para calçar os sapatos que iam ser os meus companheiros daquela noite. Assim que tentei dar um passo, como eu receava, o meu tornozelo cedeu e eu tive de me agarrar a um móvel para não cair. Segui agarrado ao móvel até me sentar numa cadeira ao lado das irmãs, depois fiquei a olhá-las e a ver como elas estavam vestidas. Amélia, que estava mais distante de mim, envergava uma gabardine encarnada de cabedal, um corpete e saia uns quantos palmos acima do joelho da mesma cor e material, luvas brancas e botas da mesma cor acima do joelho, de salto-agulha e collants brilhantes; Andreia tinha um casaco encarnado de vinil a cobrir-lhe a parte superior do corpo, com uma mini-saia justa preta, luvas também pretas e botas pelo meio da perna de salto-agulha encarnadas; Helena trazia um vestido preto justo e curtinho, aparentemente de látex, collants rendados e sapatos pretos de vinil com salto altíssimo e compensação; e Ângela usava uma camisa branca, uns suspensórios pretos a segurarem-lhe a mini-saia larga aos quadrados, botas pretas pelo meio da perna, de vinil e com salto metálico, para além de ter o cabelo preso em totós – uma colegial.
Ana apareceu à nossa beira quase uma meia-hora depois, já eu estava farto de esperar; e assim que eu a vi, tive um choque, pois ela assemelhava-se imenso com a rapariga do outro lado do espelho, até ao nível da roupa! A diferença era que o seu vestido era magenta, os seus collants eram pretos, os seus sapatos eram cor-de-rosa e as suas unhas eram pretas… era como se fosse uma versão simétrica minha!
- Olá, “eu invertido”. – cumprimentou-me ela, a sorrir – Estás pronta para a noite, amor da minha vida?
- Erm… – demorei a reagir, a visão da minha mulher (que, apesar de ser igual ao meu, era provocante, não vou dizer que não) fez-me perder o raciocínio – Eu… ouve, não sei como vou conseguir andar com estes saltos e o meu tornozelo.
- Isso está tudo previsto. Vá, está na hora de nos divertirmos!
Dito isto, todas as minhas cunhadas se levantaram e saíram porta fora, elas que já estavam arranjadas e preparadas para a noite. Eu levantei-me e ia para as seguir, coxeando, quando Ana me abraçou.
- Ficas muito bonita de menina, amor. – sorriu ela – Davas uma gaja gira!
- Oh, deixa de ser parva, vamos lá embora para ver se acabamos com isto.
- Acabar?
E sem me dar tempo para nada, ela aproximou os seus lábios dos meus e deu-me um enorme linguado, cheio de paixão, ao qual eu só consegui reagir uns segundos depois, devolvendo-lho na medida do possível.
- Eu não quero que acabe, amor… – continuou ela assim que as nossas bocas se separaram – Queria ser lésbica contigo um dia e outro, e outro, e outro…
- D-deixa de ser totó, Ana… sabes que eu te amo mais que tudo, mas não era capaz de mudar de sexo, desculpa.
A minha esposa soltou uma gargalhada.
- Operação? Não é preciso, bastam os nossos métodos de disfarce. – voltou a rir-se e deu-me mais um beijo.
O encanto quebrou-se quando aquele beijo terminou: ela enlaçou o seu braço no meu e fez-me andar na direcção da porta, apoiando-me.
- Vamos em frente, Carla, que a noite é uma criança!
Suspirei, levantei a cabeça e fui em diante, apertando a mão de Ana. O que viesse, viria.

continua...

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