sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O treino (parte 4)

continuação...

Como se pode calcular, passei umas horas absolutamente horrorosas. Para além de estar numa posição terrível e de não arranjar jeito de me colocar confortável, o chão rugoso cheio de arestas feria impiedosamente a minha pele; e tinha ainda as molas nos lábios da rata a causarem-me uma dor insuportável. Durante largas horas limitei-me a soluçar desalmadamente e a pedir a Deus que me ajudasse a salvar daquela situação.
Apesar de ter levado aquele banho de mangueira, ainda me sentia suja em algumas partes. A cara ainda continha vestígios de gordura do jantar, e, para piorar a situação, os ferros que tinha na boca faziam-me babar descontroladamente.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O treino (parte 3)

continuação...

Como seria de esperar, não consegui dormir nada. Os meus lábios estavam ressequidos: toda eu me sentia a desesperar por uma gota de água, e o chão tormentoso em que e encontrava deitada não me deixava encontrar posição para descansar.
Não sabia quanto tempo havia passado desde a minha captura. Eu nunca fora muito boa a medir o tempo, e estando sem ajuda da luz natural, pior ainda. Talvez ainda só tivesse passado um dia… talvez já houvesse pessoas à minha procura. Não que isso me descansasse sobremaneira: duvidava seriamente que aquela maníaca não tivesse preparado tudo de forma a não deixar pistas em relação ao seu paradeiro. Aliás, tinha uma ideia de que ela já era experiente naquele tipo de coisas.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O treino (parte 2)

continuação...

Passei umas horas horríveis. Era suposto tentar dormir mas o meu desconforto era demasiado. O meu cabelo estava ensopado em urina e exalava aquele cheiro a casa de banho mal lavada que me enojava e causava vómitos (e tive-os abundantemente), e a sensação das minhas cuecas húmidas no mesmo líquido fazia-me ter nojo de mim própria. Talvez fosse esse o objectivo daquela megera, humilhar-me até ao infinito… mas porquê? Que ganhava ela com isso? Afinal de contas porque havia sido raptada por aquela mulher – supondo que trabalhava sozinha? Tentei libertar-me, debati-me largo tempo, mas as minhas amarras não cederam um milímetro. E foi então que começaram os ataques de choro. O que seria de mim? Quanto tempo demoraria o meu marido a ir à polícia participar o meu desaparecimento?

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O treino (parte 1)

Aquele havia sido um dia demasiado cansativo. Fiz votos de não haver fila na estrada, pois todo o meu corpo suspirava por descanso. Receber chamadas, tratar da logística da distribuição do hipermercado, ter de aturar os colegas… Sentia-me estoirada e farta. Só que… tinha de continuar ali, pois precisava de dinheiro para conseguir sobreviver. As contas não se pagam sozinhas...
Cheguei a casa quase uma meia-hora depois de ter picado o ponto no escritório. Atirei as minhas coisas para cima de um sofá, olhei para o espelho do corredor e pensei ‘Bolas, como me sabia bem um mês ou dois de férias.’ O Paulo ainda não devia ter chegado, ele saía do trabalho mais tarde que eu. Atirei-me também para cima de outro sofá e comecei a sentir o sono a invadir-me...
Um barulho acordou-me. Olhei para o meu relógio de pulso dourado, oferta dele, e vi que tinha dormido quase duas horas. Abanei a cabeça e olhei para o estado catastrófico em que o sofá havia deixado as minhas roupas. Sentia o estômago a dar horas: havia passado demasiado tempo desde a última vez que havia comido. Tirei o casaco e fui até à cozinha, peguei numa fatia de pão e comecei a comer. Então o barulho voltou a ouvir-se: era a campainha da porta, que desta vez tocou durante mais tempo. Gritei um “Já vou! Já vou!” e regressei ao corredor, tentando adivinhar quem podia ser. Até podia ser o Paulo que se tinha esquecido das chaves de casa...
Sorrindo perante a ideia, abri a porta.
Um saco preto envolveu-me a cabeça.
E, a seguir, perdi os sentidos.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Preto e amarelo

(história anterior)

Muitas coisas mudaram em pouco tempo. Para começar, a nossa família tem um novo membro: sem estar nada à espera, dei à luz um bebé – tal como a minha primeira gravidez, totalmente despercebida até ao aborto – a que demos o nome de Miguel. Tivemos de adaptar um pouco a nossa vida, pois nenhum de nós estava minimamente preparado para ser pai tão cedo (apesar de estarmos ambos na casa dos trintas), mas ter um filho acabou por não modificar muito a nossa vida por aí além. OK, dormimos menos e precisamos de o deixar com alguém quando queremos fazer algo mais privado, mas é isso.
Profissionalmente, depois de quase nove anos a treinar o Desportivo de Seixal, o meu Carlos decidiu embarcar numa nova aventura. Os milhões e as estrelas do Barcelona seduziram-no – especialmente depois das eleições do Desportivo, em que foi eleita como presidente a anterior vice da área do futebol, com quem o meu marido tinha uma rivalidade titânica. Assim sendo, tivemos de, com muita tristeza, deixar amigos e familiares (do lado dele) para trás, mudando-nos de armas e bagagens para a cidade condal. Todavia, não fomos sozinhos: Andreia e Ellen seguir-nos-iam algumas semanas depois, assim que elas encontraram trabalho na capital catalã – aliás, nem eu nem Carlos achávamos jeito a estarmos algures sem a presença de ambas connosco. Andreia conseguiu encontrar um trabalho num cabeleireiro dum centro comercial, enquanto Ellen começou a tirar fotos para um site de fétiches espanhol.

domingo, 16 de dezembro de 2012

O novo espaço

(Por forma a desculpar-me desta ausência tão grande de histórias, segue aqui um conto gigantesco, começado em Agosto e só agora finalizado)

Quando o relógio pouco passava das 15 horas, cheguei ao ponto de encontro combinado por Lady Anna, à sombra duma azinheira, como a canção de Zeca. Afinal de contas, estávamos no meio do Alentejo, sob um calor abrasador – ainda não tínhamos tido muitos, neste Verão atípico. Lady Anna não Se demorou muito a chegar, também; sem sair do Seu pequeno carro, Ela disse-me para A seguir até me fazer sinal.
Percorremos quilómetros, por boa estrada de alcatrão, algo movimentada, até que a Sua viatura enveredou para dentro duma povoaçãozita e se deteve num parquezito com meia-dúzia de carros lá parados. O movimento era mínimo: estávamos a meio da tarde dum domingo, e, àquela hora, imaginei que os locais estivessem ou de passeio ou a dormir a sesta.
Saímos dos nossos carros e reparei que Lady Anna estava "à civil", com uma t-shirt verde, jeans e ténis brancos. A minha Dona não era muito alta de estatura, e parecia bastante fofa (se eu pudesse tê-La nos meus braços horas a fio, seria a maior alegria da minha vida), mas era dura e sabia impor-Se. Ajoelhei-me a Seus pés, agarrei-Lhe na mão e beijei-A, recebendo uma carícia na cabeça, como um cachorro bem-comportado a receber uma festa do seu dono. De seguida, Ela disse-me para me colocar atrás do Seu carro, algemou-me os pulsos atrás das costas e prendeu uma trela de metal à coleira que eu sempre usava ao pescoço. Para finalizar, colocou-me um saco preto, de pano, na cabeça e fez-me entrar na bagageira, fechando a porta atrás de mim. Segundos depois, ouvi o motor arrancar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

ausência.

Não, desta vez não é um conto. Apenas venho aqui lamentar-me pela inactividade deste espaço. Nos próximos tempos, vou ver se consigo suprir esta falha. Apesar de, nestes últimos tempos, a minha criatividade não ter ajudado e o meu espólio de histórias não ter aumentado por aí além...
A ver vamos, como diz o outro.

domingo, 13 de novembro de 2011

Cuidados domésticos

(história anterior)

Depois dum dia intenso no trabalho, Marco chegou a casa, ambicionando relaxar embarcando numa sessão de “dolce fare niente”. Ligou a TV, procurou um canal que estivesse a dar um jogo de futebol e, aumentando o volume, foi tomar banho.
Um quarto de hora depois, em que ele se livrou da tensão – e da sujidade – Marco fechou a torneira e saiu da casa de banho, limpando o corpo à toalha. Foi ao quarto para buscar uns boxers, preparando-se para uma tarde de relaxamento enquanto esperava que Paula viesse do trabalho.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A soldado e a aberração

1941. A Alemanha nazi não olhava a meios para atingir o seu fim de conquistar a Europa. Por sugestão de Himmler, havia sido criada a Elitewache (Guarda de Elite), um ramo especial das SS, apenas constituído por mulheres – mulheres essas que foram treinadas em toda a espécie de armas, tornando-se autênticas máquinas de matar. Durante meses, a EliteWache foi um espinho cravado nos Aliados, fazendo parte da blitzkrieg alemã e ajudando, por exemplo, na conquista da Grécia e da Jugoslávia.
Else Becker fechou a janela e passeou-se pelo quarto onde estava alojada, nua. A natureza havia-a dotado dum corpo escultural, com um busto preenchido sem ser em demasia, dumas ancas roliças e que terminava num par de pernas longas. Parou defronte dum espelho e pavoneou-se diante dele, admirando-se.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O interrogatório

Estava assustada. Não conseguia ver nada, o sítio onde eu havia sido fechada não possuía iluminação decente. Podia sentir a humidade daquele sítio na minha pele, e isso fez-me arrepiar. Ou seria por causa do medo?
Umas horas antes, depois de sair de casa para ir às compras no mercado, senti uns braços fortes rodearem-me e um pano húmido ser encostado à minha cara. Tentando debater-me contra o estranho que me prendia, perdi a consciência, e havia acordado naquele lugar escuro, com os meus pulsos acorrentados por cima da cabeça. E, por muito que eu olhasse ao redor, não conseguia descortinar o que se estava a passar, ou quem me havia raptado.