segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A viagem (parte 2)

 

continuação...

O dia seguinte, domingo, trouxe um dia mais cinzento, com um céu carregado de nuvens e algo ventoso. Voltei ao meu vestido azul “de grávida”, como Márcia lhes chamava (a realidade é que, um bocado farta de andar sempre com fatos ou roupas apertadas, durante aquela viagem tinha preferido roupas largas, vestidos compridos até aos pés e sapatilhas), enquanto ela continuava com o seu visual rockeiro de blusão de cabedal, t-shirt, jeans rasgados e botas de cabedal pela coxa.

A primeira etapa daquele dia levou-nos a Alter do Chão; segui as indicações do GPS e parei o carro num dos muitos lugares livres do parque do cemitério da terra.

- Andi? Que estamos aqui a fazer? – perguntou ela, de cenho franzido, olhando para mim de lado.

- Anda daí.

Abri a porta do carro e saí, sendo seguida por uma expectante Márcia. Ainda bem que nos dias anteriores eu havia ligado para a Junta a pedir informações pois não queria andar ali a vasculhar túmulo a túmulo até encontrarmos aquele pretendido; ainda assim tive de andar a perceber como era a organização daquilo.

- Andrea, importas-te de me dizer o que raio estamos a fazer aqui? – gritou ela assim que me viu acelerar o passo, já certa da direcção para onde eu teria de seguir.

Dali a momentos, encontrava-me parada frente a frente com um túmulo meio abandonado, com Márcia a juntar-se a mim, ainda com a incerteza no olhar – uma incerteza que se transformou em raiva assim que leu o nome que estava na lápide.

“À memória de José Alberto Cunha Semedo

N. 07/09/1960 – F. 26/03/2021

Eterna saudade de sua família”

Eu nunca conhecera muito bem o pai de Márcia, a nossa convivência nunca havia sido muita pois sabia que ele não aprovava a nossa relação – aliás, ele não aprovava muitas das coisas que Márcia havia feito ao longo da vida, daí ela ter-se emancipado tão cedo e ido morar sozinha assim que pôde. Ela procurou sempre poupar-me ao contacto com ele, tanto que nem sequer o convidou para o nosso casamento. A própria mãe dela (e mulher dele) havia-o deixado, procurando uma vida sem regras e havendo-se ligado a um hippie “de pé rapado”, estando naquele momento em parte incerta.

- Andrea?!

Olhei para Márcia e vi o seu olhar furioso. Se os olhares matassem, era muito provável que eu tivesse caído redonda no chão.

- Amor meu, eu não sei o que tu passaste à mãos do teu pai. Não consigo sequer fazer uma ideia. Mas gostava  aqui, hoje, que libertasses tudo o que tens aí dentro sobre ele. Tu carregas grandes pesos, Márcia, e não precisas. Não quero que o faças. Eu estou aqui, a teu lado, e quero ajudar-te. Quero que tu largues a mó que carregas sobre os ombros por causa de tudo o que o teu pai te fez ou não fez, tudo o que o teu pai te chamou ou não te chamou. Não tens que carregar esse ódio todo dentro de ti… Ele já não te pode fazer nada. Ele já estará a pagar pelo que te fez. Mas quero que deixes de sofrer por isso. Ele morreu; deixa que morra também o teu ódio, os teus maus sentimentos por ele. Deixa-o morrer em paz.

O rosto de Márcia foi ficando de todas as cores à medida que eu fui falando, e demonstrou todas as emoções possíveis e imaginárias.

- Andrea, eu não quero fazer isto. Não o…

- Shhhh, amor, está tudo bem. Eu estou aqui. – abracei-a por trás, tentando dar-lhe força – Eu estou contigo. Ele já não nos pode fazer mal. Ele já não nos pode magoar. Deixa sair tudo o que ele te fez. Liberta-te.

Vi que Márcia estava de punhos cerrados, olhando para a fotografia onde estava o rosto dele, um rosto austero e duro.

- Vai-te foder, velho.

A respiração de Márcia foi acelerando, quase como se ela estivesse a ganhar fôlego para o que iria fazer a seguir. Larguei-a e dei uns passos para trás, deixando-a à vontade para se libertar.

- Apesar do que tu ameaçaste, ainda aqui estou. Não morri com uma seringa espetada nos braços, como tu “profetizaste”. Nem acabei feita puta no Bairro Alto ou no Intendente.

Outra pausa.

- “Eterna saudade da família”… que aldrabice! Soubesses tu quantas vezes eu sonhei que tu morrias e eu e a mãe íamos ao funeral para nos rirmos de termos ficado livres de ti de vez! Fóssil de merda! Odeio-te, odeio-te, odeio-te!

Márcia começou a dar punhadas na pedra tumular que servia de tampo ao jazigo – eu sabia que ela se ia arrepender daquilo mais tarde mas deixei-a, afinal de contas eu havia-a “provocado” para aquilo.

- Oxalá nunca te tivesse conhecido! Oxalá a mãe tivesse conhecido um homem melhor do que tu! Tu foste um merdas homofóbico e nojento, morreste sozinho e na miséria, só espero que a cirrose que te matou tenha sido o mais dolorosa possível!

Cuspiu na imagem do pai que estava na lápide de cabeceira.

- Mil mortes nunca serão suficientes para tu passares pelo sofrimento que nos fizeste passar, seu merdas! Velho caquético e peçonhento! Oxalá Satanás te espete uma forquilha em brasa pelo cu adentro todos os dias que ardes no Inferno, cabrão de merda! Os vermes deviam ter-te devorado vivo, em vez de estarem agora a destruir-te quando já não sentes nada! Talvez aí sentisses um décimo do que me fizeste sentir ao longo da vida, a mim e à mãe! Um minuto atrasada para o jantar, já não jantava! Uma nota abaixo do que querias, era sova garantida! Obrigaste-me a rapar o cabelo quando tive uma negativa! Nunca, nunca, nunca te perdoarei pelos traumas que me causaste! Ouviste?! NUNCA!!!

Parou, tentando recuperar o fôlego depois daquele acesso de raiva mais aceso. Claro, nada do que ela revelava ali era especialmente novo para mim, eu havia crescido com ela e acompanhado os maus-tratos do pai dela para com ela e a mãe… mas nós éramos estrangeiros, estrangeiros e pouco fluentes no português, pouco pudemos fazer para ajudar.

- Que as pedras que te cobrem te sejam pesadas como chumbo e te amassem o corpo como tu me amassaste o meu por diversas vezes… nem sequer merecias que te tivessem feito um jazigo, fóssil de merda. Desperdício de pedra… essas pedras deviam era ter-te caído em cima em vida, filho da puta (desculpa, avó, foi sem intenção, mas deste à luz um verdadeiro aborto)…

Ela caiu de joelhos no chão à frente da campa, respirando de cansada. Voltou a levantar a cabeça e a mirar o retrato, voltou a cuspir para lá.

- Nunca mais quero voltar a ver a porca da tua cara na minha vida. Não quero voltar a ver semelhante javardo à frente. Que os bichos te comam e te caguem e te tornem na merda que tu és. Que tu foste. Que tu sempre serás. Ainda bem que morreste bem longe, para eu não te cheirar!

Levantou-se, virou costas à campa e afastou-se, a caminho do portão do cemitério. Deitei um último olhar à fotografia do pai de Márcia, ainda a escorrer saliva, e fui atrás dela a correr, tentando não tropeçar nas pedras tumulares, pois ela caminhava com passos rápidos e certos, querendo afastar-se o mais rapidamente possível daquela porção de terra “contaminada”.

Consegui apanhá-la mesmo quando ela estava a meia-dúzia de passos da saída do cemitério.

- Amor? – chamei-a, suavemente.

Ela parou, permitindo-me apanhá-la e encará-la. Ela tinha o rosto fechado como dantes, mas havia algo mais, havia um outro brilho nos seus olhos. Um ligeiro tremer do lábio inferior deixou antever o que aí vinha – e o que eu esperava; e mal tive tempo para a abraçar quando ela se desfez em lágrimas, a chorar como uma criança, libertando as lágrimas trancadas naquele coração havia tantos anos.

Estivemos ali perto de meia-hora, Márcia a chorar e eu a abraçá-la e a dar-lhe força, a procurar preencher o espaço vago por aquela tristeza e raiva toda com energias boas e positivas. Algumas pessoas passaram por nós, olhando-nos, mas não nos disseram nada – era um espaço para choro, afinal de contas.


Assim que entrámos no carro, não sei o que me deu para rumar à Nazaré. Quem fosse olhar à nossa rota durante estas férias haveria de pensar que nós queríamos era gastar combustível feitas parvas… mas achei que nos faria bem um passeio à beira-mar, com o marulhar das ondas ao longe e os nossos pensamentos a correrem ao sabor do vento. Durante as cerca de duas horas e pouco que durou a viagem, Márcia não abriu a boca, limitando-se a ficar sentada no banco, a sua mão esquerda entrelaçada na minha direita (o que complicou um bocado a parte de meter mudanças, mas não me chateei), enquanto ela ia abrindo e fechando a direita, calculei que por causa das punhadas na lápide; também não meti conversa com ela, pois achei que deveria ser ela a puxar conversa e que o faria quando estivesse preparada.

O tempo continuava chocho quando chegámos à zona do areal da praia da Nazaré, com nuvens grossas e cinzentas a cobrirem o céu, mas sem darem mostras de quererem dar chuva. Parei o carro e só então Márcia largou a minha mão, saindo do carro e metendo as mãos nos bolsos do casaco de cabedal. Fui atrás dela, claro, e ela foi andando lentamente em direcção ao mar, mas deteve-se a uma enorme distância da zona de rebentação. Parei ao lado dela, olhando para o seu rosto: Márcia mirava o mar com um olhar vazio, morto, como se tivesse perdido o seu espírito todo, a sua garra. Dei por mim a pensar se teria feito bem em confrontar Márcia com a campa do pai. E se ela tivesse perdido a sua essência, aquilo que fazia daquela rapariga ruiva a “Márcia Infernal”? Não queria acreditar que as coisas fossem assim tão simples ou tão automáticas, mas era um facto que, desde que havíamos saído do cemitério, Márcia havia sido quase um zombie, olhando em frente sempre sem qual espécie de luz no seu olhar – porém fora ela a primeira a agarrar-me na mão e a não a largar durante a viagem desde Alter do Chão.

Então, ela olhou para trás, em busca de algo ou de alguém. Apressei-me a entrar no campo de visão dela, mas ela acabou por não reagir à minha presença: continuava com um olhar vazio, distante, como se aquela luz que sempre figurara no seu olhar tivesse sido apagada.

- Andi? – ouvi-a chamar, em voz fraca.

- Sim, amor? – dirigi-me logo para a beira dela, tentando perceber o que se iria seguir.

- O meu pai morreu… se é que lhe posso chamar pai. E a minha mãe está em parte incerta.

Engoli em seco, um bocado sem saber qual o rumo da conversa; assim, limitei-me a dizer:

- Sim.

Voltei a ver os seus olhos encherem-se de lágrimas.

- Estou sozinha no mundo.

Abracei-a com força, sentindo que ela voltava a soluçar, a chorar.

- Não é verdade, amor… Eu estou aqui. Estarei sempre aqui. Sempre que precisares de mim. Para o bem e para o mal. Na alegria e na doença. Na saúde e na doença. Foi o que prometemos uma à outra.

Passei os meus dedos pelo cabelo frisado dela, sentindo-a assentir com a cabeça, concordando com o que lhe dizia.

- Nunca te vou deixar. Aconteça o que acontecer. És o yin do meu yang. Completas-me… e eu completo-te. Por isso nos temos dado tão bem e continuamos juntas há… – parei para fazer contas – … 26 anos… Já pensaste nisso? Já pensaste que nos aturamos uma à outra há mais de um quarto de século? Ainda éramos meninas, adolescentes, mas já nos amávamos… e não vai ser agora que nos vamos separar. Eu amo-te e tu amas-me… e isto é suficiente para nunca mais ficares sozinha na vida.

- Prometes? – perguntou ela, em voz baixa.

- Prometo.

Márcia afastou-se, ainda de olhos rasos de lágrimas, e encarou-me: o seu olhar havia voltado ao normal. Ela estava de volta. Ainda se notava no rosto aquele medo, o medo que toda a gente tem da solidão, mas a sua expressão já era outra. Avancei e limpei-lhe os olhos com a ponta dos dedos.

- Vamos beber qualquer coisa? – sugeri, olhando para a zona oposta ao mar, onde sabia que havia alguns cafés, bares e restaurantes.

- Vamos… sim, vamos. Acho que estou a precisar de qualquer coisa.

E lá abalámos, de mão dada.


Sentámo-nos numa esplanada escolhida de forma aleatória (de qualquer maneira, havia lugares livres em todas, o tempo não convidava a grandes passeios) e mandámos vir um sumo de laranja natural para cada uma.

- Como te sentes? – perguntei, assim que dei o primeiro golo no meu sumo.

Márcia não respondeu logo: pareceu estar a medir as palavras que queria dizer, ou a pensar no que sentia.

- Não sei muito bem, Andi… mas penso que me sinto… leve? É difícil explicar, acho que nunca me senti assim antes. Mas acho que “leve” é a melhor descrição. – olhou para mim – Acho que nunca me havia apercebido do quanto me pesava o meu passado, a interferência do meu pai…

- Deixa isso. – dei-lhe a mão – Ele já não te pode fazer mal. E não importa o que ele te fez, o que importa é o que tu podes fazer agora. És maior, vacinada, tens um trabalho onde és bem-vista pelos teus chefes, recebes bem, ainda por cima tens a tua cara-metade a trabalhar contigo… já viste a vida de sonho que conseguiste? E sozinha, sem ajudas!

- Sim… – Márcia ficou a processar durante algum tempo – Sim… é verdade. Consegui. Apesar do filho da puta do meu pai (desculpa, avó!), eu consegui uma boa vida. E muito graças a ti. E à tua estabilidade, ao porto de abrigo que me proporcionaste.

Aproximei-me dela e beijei-a nos lábios, ao de leve.

- Ainda assim, – atirei, assim que voltei a sentar-me como deve ser no meu lugar; ia aproveitar as boas graças para uma piada arriscada – acho que devias ter organizado o funeral do teu pai.

Ela engasgou-se.

- Estás parva?! Achas que…

- Espera, deixa-me acabar. – detive-a com uma mão sobre os seus lábios – Organizavas o funeral do teu pai, mandavas cremar o corpo dele, depois ias para um sítio ermo, abrias uma covinha no chão, despejavas lá para dentro as cinzas dele, depois cagavas para dentro da cova e tapava-la. Não achas que teria sido uma ideia brilhante?

Márcia olhou para mim, depois disparou-se a rir.

- Olha, por acaso…


Ficámos por aquela zona da Nazaré, com a minha marida a reservar-nos logo uma suite para duas pessoas num dos hotéis da Nazaré. Naquela noite, porém, não houve sexo desenfreado, nem amor apaixonado: ambas estávamos cansadas e, principalmente, Márcia estava extenuada daquele extravasar de emoções por onde eu a havia feito passar. Desafiei-a a ligar para os nossos chefes a pedir mais dois dias de férias, pois ainda não nos sentimos prontas a acabarmos aquele passeio, pedido esse que foi aceite, e depois ela veio aninhar-se nos meus braços, debaixo dos lençóis, pronta a dormir. Ainda lhe quis dar um beijo, mas ela estava tão cansada que se deixou logo dormir; assim, dei-lhe um beijo na cabeça e na testa, desejando que ela dormisse um sono sem sonhos e descansado, e logo a seguir posicionei-me também para dormir.


Como podem ver, nós não tínhamos absolutamente plano nenhum em relação à nossa rota. Íamos por onde calhava, rumo às terras que nos apetecia. Assim, nesse mesmo espírito, na manhã seguinte, rumámos rumo ao Norte e à cidade do Porto. Só lá tinha ido em visitas de estudo, Márcia tinha lá ido algumas vezes, apesar de ter sido sempre em trabalho, mas ainda assim ela acabou por me servir de guia. Levou-me a um restaurantezinho num beco que eu nunca na vida teria descoberto, onde comi pela primeira vez uma francesinha à séria: escusado será dizer que acabei a refeição a custo e com a boca a arder, enquanto Márcia ria a bandeiras despregadas ao ver a minha cara.

À saída do restaurante, vimos uma loja de tatuagens; e imediatamente agarrei na mão de Márcia:

- Já sei o que podemos fazer!

- Uh… Andi? – objectou Márcia, ao ver-se naquele espaço estranho, com os dois tatuadores a olharem para nós como se fossemos duas malucas.

- Boa tarde. – dirigi-me a um deles – Queríamos fazer uma tatuagem as duas.

- Com certeza… – respondeu aquele para quem olhei – Têm alguma ideia do que querem, um desenho já escolhido, ou querem ver uns desenhos para tirarem ideias?

- Andi? “Queremos”? – Márcia fulminava-me com os olhos.

- Temos uma ideia. Uma tatuagem nas costas, por cima do coração, a dizer “Forever in my heart” (Para sempre no meu coração) com o nome dela – e acenei com a cabeça na direcção de Márcia – em ponto grande. E ela com o meu nome. Eu chamo-me Andrea, ela chama-se Márcia.

- Uau… tens a certeza disto, amor? – ela olhava para mim, quase como se não acreditasse que eu pudesse ser tão ousada; mas aquela viagem estava a revelar uma faceta de mim que até eu própria desconhecia.

- Sim, tenho. Quero muito.

E assim foi. Estivemos as duas lado a lado (eles tinham duas marquesas), todo o tempo de mãos dadas, enquanto os tatuadores faziam o desenho que me havia passado pela cabeça naquele instante em que olhei para a loja de tatuagens (sim, fora autenticamente por instinto que aquela tatuagem tinha sido pensada e criada). Quando saímos dali, Márcia pegou-me na mão e fez-me olhar para ela:

- Quem és tu e o que fizeste à Andi que eu conheço?!

Desatei-me a rir.

- É uma versão assim tão diferente daquela com quem te casaste?

- Bom… um bocadinho mais ousada, isso é. E aventureira. Mas… eu gosto disso.

Puxou-me para ela, abraçou-me e deu-me um enorme beijo.


No nosso passeio pela baixa do Porto, deu-me outro “ataque instintivo”: entrei numa loja de calçado daquelas caras e andei à procura de um par de botas de salto alto. Sim, eu sei, não parece nada do outro mundo, afinal de contas eu tinha alguns pares de botas, mas a) havia-os deixado todos em casa e b) queria um par que fosse especial, que fosse “o” par de botas. E apesar de saber que ainda não estávamos em época de as lojas terem esse tipo de calçado à venda, as meninas da loja tinham alguns pares em armazém e foram buscá-los para eu experimentar. Assim que apareceram com um dos pares, os meus olhos faiscaram e pensei logo “Uau… Deus queira que me sirvam!” Eram de cabedal preto, logicamente, de sola vermelha, com um cano que subia um pouco acima do joelho, fecho lateral quase até acima, salto-agulha com uns 10 cm de altura e uma sola ligeiramente compensada. Experimentei logo a do pé direito e fiquei radiante quando vi que me assentava quase como se tivesse sido feita de propósito para mim. Quando calcei a outra bota, andei um pouco com elas e vi Márcia a olhar-me quase com desejo, como se os olhos dela me dissessem “se não estivessem aqui estas cabras todas, encostava-te à parede, levantava-te esse vestido e levava-te ao Céu!” Sorri, descalcei-as, voltei a calçar as minhas “sensaboronas” sapatilhas e fui fazer contas com a menina da loja.

- Esta noite, ai de ti que não calces essas botas, menina Andi! – atirou-me a minha marida, assim que saímos da loja, eu com um grande saco na mão.

Continuámos a passear pela baixa do Porto, fomos ver a zona dos embarcadouros dos cruzeiros que sobem o Douro, ainda pensámos se no dia seguinte iríamos fazer aquele passeio mas optámos por nos mantermos de carro, até porque o dia seguinte era o último dia daquelas mini-férias (talvez fosse um bocado abuso pedirmos mais um dia aos nossos patrões). Mas ainda gostava de ir ver a tal paisagem do Douro Vinhateiro que sempre ouvira falar, ainda queria fazer tanta coisa…

De súbito, quando pensávamos em ir à procura de um hotel para passar a noite, deu-me mais um “ataque instintivo”: assim que nos metemos no carro, disse a Márcia para pesquisar alojamentos em Peso da Régua.

- Desculpa?? Então mas não íamos dormir no Porto e arrancávamos amanhã de manhã? – protestou logo ela.

- Tens razão… “íamos”. Mas apetece-me mudar os planos. – não consegui reprimir uma gargalhada enquanto me agarrava ao volante e guiava o carro rumo à auto-estrada.

- Mas… mas agora não te cansas de mandar, é isso?

- Basicamente é isso, sim.

Não pude deixar de apanhar, pelo canto do olho, um sorrisinho malandro, como que a dizer “deixa estar, logo as papas…”

Cerca de hora e meia depois chegávamos a Peso da Régua – e é claro que nesse tempo Márcia já nos tinha reservado um quarto num hotel ali ao pé. Fizemos o check-in, fomos  para o quarto que nos tinham reservado e, como menina bem comportada, antes que Márcia me dissesse alguma coisa já eu me tinha fechado na casa de banho com o saco onde tinha as botas compradas naquele dia e o meu saco de viagem. Bom, era verdade que não havia trazido propriamente roupa sexy para aquela viagem, mas abri a minha mala e pensei no que vestir. Tinha ali e lingerie relativamente normal, um par de collants que haviam ficado ali esquecidos desde a viagem anterior…

- Andi, Andi, que estarás tu a tramar dentro dessa casa de banho… – ouvi a voz de Márcia lá fora, quase imaginando o sorriso que ela teria na cara e a expectativa que ela teria.

Quando saí da casa de banho, vestia o meu conjunto de soutien e tanga encarnados, com algumas rendas e transparências, e havia vestido os collants por baixo da tanga. Tentei desfilar da porta da casa de banho até à cama, onde Márcia me esperava, de pernas cruzadas e na expectativa; ainda estava completamente vestida. Digo “tentei” porque “andar de saltos altos” é um bocadinho diferente de “desfilar de saltos altos”, e eu não tinha grande equilíbrio, daí andar a maior parte das vezes de sapatilhas…

- Hmm, linda menina, toda empiriquitada para a sua Senhora… – vi-a lamber os lábios ao mirar-me de alto a baixo.

Parei mesmo à frente das suas pernas cruzadas, na expectativa. “E agora? Tomo a iniciativa ou deixo-a avançar?”

Márcia descruzou as pernas e, mesmo sentada, colocou o pé direito em cima do meu ombro esquerdo, fazendo força para que eu me aproximasse dela.

- Anda cá… – e abriu os braços para me receber.

Assim que me deixei cair em cima de Márcia, ela depressa nos fez rolar na cama e inverter a posição, ficando eu de barriga para o ar.

- Agora é a minha vez de me preparar… mas eu não preciso de ir para a casa de banho. – declarou, com um sorriso.

Perante o meu olhar expectante, ela retirou a t-shirt escura, expondo desde logo os seus seios formosos e descascados (ela estava sem soutien!), desapertou o cinto e, antes de tirar as calças, desapertou e tirou as botas (Márcia dizia que estas alturas eram as únicas em que se arrependia de ser mulher, “pois para os gajos basta só abrir a braguinha e já está, têm a pila logo de fora, enquanto nós temos de nos despir todas”), retirou as calças e voltou a calçar as botas, pois ela adorava fazer amor unicamente com as botas calçadas (ou em contacto com qualquer peça de roupa de cabedal – ou qualquer roupa kinky, para sermos sinceras).

Assim que se aprontou, Márcia atirou-se para cima de mim, imediatamente abraçando-me e colando os seus lábios aos meus. Devolvi-lhe o abraço e o beijo, e ficámos durante algum tempo a trocarmos linguados. Depois, a minha marida ergueu-se e, enquanto eu me mantinha quieta no meu lugar, virou-se para trás de maneira a colocar a cara entre as minhas pernas… e encostando o seu baixo-ventre à minha cara: se eu metesse a língua de fora, era capaz de tocar no seu clitóris…

- Olha, olha, o que esta gaja fez o favor de fazer… – ouvi a voz de Márcia – Só para me dar trabalho, foi-me vestir collants com um tempo destes…

Senti as suas mãos agarrarem-me nos elásticos da tanga e tirarem-ma com a mestria de uma profissional; depois as suas mãos agarraram no nylon das collants na zona da ratinha e abriram um buraco ali mesmo.

- Opah, tens sempre de me estragar as meias, a lingerie… – protestei, ao mesmo tempo que lhe dava um beijinho no clitóris.

- Quem te manda… – começou ela, mas parou assim que eu lhe dei o beijo – Ai… mais…

Dei-lhe novo beijo no clitóris, meti a língua de fora e comecei a lamber-lhe os lábios vaginais, sentindo a sua humidade, o seu sabor, o sabor da sua intimidade que eu tão bem conheço e adorava sentir e saborear… Márcia gemia e agitava-se a cada contacto da minha língua, mas não demorou até entrar também naquele jogo do “mete a língua na parceira”: imediatamente senti aquela língua a tocar em mim, nos mesmos pontos onde eu a havia estimulado.

Ambas estávamos possuídas de paixão e procurávamos estimular a outra para que ela fizesse o mesmo connosco e nos fizesse atingir aquele orgasmo em simultâneo que nos sabia sempre maravilhosamente bem… Márcia era mais brusca nos seus beijos e nas suas lambidelas, como se se a paixão que sentia por mim a levasse a ser mais selvagem e a levar-me ao Paraíso exactamente daquela forma; eu, ao invés, era mais meiguinha, mais carinhosa, e ia enfiando a minha língua na ratinha dela com cuidado, sentindo-a acelerar cada vez mais, como se estivesse a perder o controlo – o que era normal nela, daí eu perceber que ela estava por pouco… assim como eu.

Os nossos orgasmos foram simultâneos e fortes – e mais uma vez admirei-me como não veio ninguém bater-nos à porta para acabarmos com o barulho, tal o volume dos nossos gritos de prazer. Assim que me senti acalmar, comecei a agitar-me na cama como que querendo mexer-me debaixo do corpo da minha marida; assim que ela me deu uma abertura, dei uma volta na cama para ficar deitada ao lado dela, beijando-a e sentindo os seus sumos na minha boca (e imaginei que Márcia também saborearia os seus nos meus lábios), ficando nós duas aos beijos uma à outra até adormecermos.


E chegámos ao último dia das nossas férias, das férias que precisávamos, das férias que Márcia precisava para se reencontrar e voltar a ser a mulher que eu conhecia e amava. Senti um aperto no coração pelo facto de se estar a acabar o “bem bom”… mas tinha que ser, não íamos pedir mais dias de férias aos nossos chefes, nem pensar em abusar ainda mais da confiança deles (era melhor guardar umas fichas para outras alturas)! Antes de sairmos do quarto de hotel, Márcia fez uma imposição:

- Amorzinho, desculpa lá, podes vestir esses vestidos de grávida, mas tem lá paciência: hoje calças as botas que compraste ontem (e que usaste nesta noite)!

- Pronto, OK… – lá acedi, lembrando-me “desta noite” e corando.

E, no entanto, ainda havia um sítio ou dois onde queria ir: queria ver as paisagens do Douro Vinhateiro e gostava de experimentar uma praia fluvial na zona de Góis. A primeira parte ficou vista logo de manhã, uma vez que tínhamos ficado logo no Peso da Régua, mesmo em cheio na zona pretendida. Fomos de carro até um ponto alto, onde desse para ver as curvas do Rio Douro e os socalcos das vinhas – e onde alguém havia colocado um daqueles baloiços que agora enxameiam todos os lugares turísticos. Fiquei encantada a olhar para aquela paisagem, estive durante uns bons cinco minutos a olhar em volta, vendo o contraste do verde das vinhas com o azul do rio e o castanho da terra. E durante esses cinco minutos, Márcia esteve sempre de mão dada comigo, sempre ligada a mim. Acabámos por ir até ao baloiço, andámos a baloiçar um bocado naquilo (apesar de a função daqueles baloiços ser tudo menos aquela), e acabámos por tirar uma selfie com aquela paisagem deslumbrante por trás.

A viagem até à praia fluvial de Góis levou-nos sensivelmente duas horas, sem pisar muito o acelerador (apesar de as botas, por algum motivo, me tentarem a carregar mais a fundo no pedal). Ali chegadas, tivemos de mudar de roupa ali mesmo dentro do carro e dirigimo-nos, de chinelos e biquíni (o meu vermelho, o dela verde-escuro) envergados, rumo às águas clarinhas do rio. Assim que pousei a toalha na relva (a superfície daquela praia era relvada), atirei-me para dentro de água: estava fria, mas soube-me optimamente aquele mergulho. Olhei para trás e não pude deixar de sorrir: Márcia ia avançando pé ante pé, tentando molhar-se o mais lentamente possível.

- Então, que se passa, amor? A “Márcia Infernal” dá-se mal com água mais fria? – ri.

- Vai para o caralho, Andi! Isto está gelado! – gemeu ela, sempre pé ante pé pela água dentro.

Em resposta, dei mais um mergulho e voltei à tona de água, continuando divertida a olhar para figura de Márcia, sempre a avançar a medo. Enchi uma mão de água e atirei-lha, ainda e sempre a rir:

- Anda lá, velhota, a água está uma maravilha!

- Foda-se, Andi, isso não se faz! Esta merda está quase congelada!

Era um pratinho vê-la a entrar dentro de água em movimentos lentos; alguns banhistas olhavam para a cena, divertidos. Quando ela ficou com água pela cintura, soltou um gemido de dor.

- Porra, não podias arranjar uma praia com água mais gelada?! – protestou ela, enquanto tentava molhar os peitos e fazendo uma careta sempre o que fazia.

- Amor, acho que todas elas têm mais ou menos a mesma temperatura. No outro dia, no Guincho, a água não estava mais quente do que esta, acho eu. Só te safavas numa piscina. Ou no mar do Algarve.

- Olha, boa. Da próxima vez, vamos para o Algarve.

Soltei uma gargalhada.

- Já descobri a kriptonite da Márcia “Infernal” Semedo: água fria para tomar banho. – sorri ao ver a cara feia dele – Vá, amor, anda cá para eu te aquecer…

Ela lá continuou a sua via-crucis até se encostar a mim e me abraçar.

- Aquece-me, Andi. – podia ver que ela até batia o queixo com frio.

- Credo, amor, não é preciso tanto drama… – apertei-a entre os meus braços; ela havia-se conseguido molhar até quase aos ombros – Vá, agora ficamos aqui um bocadinho… para aquecermos. Mas depois temos de mergulhar.

- Temos de…? Andrea, sou animal de espaços quentes, isto é demasiado gelado para mim!

- Vá ver, querida. – abracei-a e virei-a de costas para mim – É só um mergulhinho, logo vês que fica tudo bem. Um, dois e…

Antes de dizer o três, fiz força para trás e fui para baixo de água, levando Márcia comigo. Fiquei submersa alguns segundos (e mantive a minha marida imersa comigo em simultâneo), depois ambas rompemos a superfície das águas.

- Porra, Andrea, fizeste-me engolir um pirolito! – começou logo a protestar ela.

- E então? Isto é água doce, não te faz mal.

- OK, mas está frio…

- Opah, deixa de ser uma velha de 90 anos. Aproveita que estás numa praia fluvial lindíssima, nesta água maravilhosa… e que tem uma grande vantagem, que tu ainda não notaste. – enquanto falava, coloquei-me à frente dela.

- Que vantagem?

Em resposta, com o indicador da mão direita toquei nos mamilos de Márcia, que se notavam perfeitamente por baixo do tecido do biquíni.

- Ai… cabrona… e logo aqui… no meio desta gente toda…

- É bom para aqueceres, amor. Vê lá se não consegues suportar já a água melhor…

Em resposta, ela deu um mergulho e voltou à de cima outra vez. Já a vi mais autónoma.

- OK, OK, isto primeiro estranha-se, depois entranha-se. Mas não me vou esquecer que me fizeste entesar os mamilos e me quiseste provocar num local público… – ela levantou um dedo em admoestação.

- Sim, porque nós nunca fizemos nada em locais públicos… – soltei uma gargalhada.

Ela abraçou-me e beijou-me prolongadamente.

- E podes ter a certeza de uma coisa, totó. – mais um beijo – Vamos continuar a fazer.

E continuou a beijar-me.


Saímos da praia, secámo-nos um bocado ao Sol e regressámos ao carro, onde voltámos a vestir as nossas roupas “civis” e a retomar a nossa viagem rumo a casa.

Depois de sairmos do restaurante onde havíamos almoçado e procurávamos o caminho para a auto-estrada mais próxima, fui fazendo o balanço mental daqueles dias. Tanto se havia passado, tantas emoções haviam sido sentidas. Havíamos rido, havíamos chorado, havíamos experimentado coisas novas. Regressávamos a nossa casa talvez mais cansadas fisicamente do que quando abalámos (normalmente é assim), mas com os nossos tanques anímicos cheios. E, mais importante ainda, regressávamos com Márcia de volta ao seu estado normal. Claro, esperava que ela se atirasse como uma moura ao trabalho; mas queria que ela tivesse percebido que não precisava de o fazer sozinha, que podia confiar em mim, pois mesmo que não fossem coisas da minha competência, poderia desabafar comigo e desanuviar a cabeça.

Fizemos a viagem toda rumo a casa de mãos dadas, e não vou negar que quando saí da auto-estrada já na Margem Sul os meus olhos se encheram de lágrimas. Queria tanto ter continuado aquele percurso com a minha marida, andarmos (ainda mais) às voltas pelo país, descobrir mais monumentos e vistas espectaculares, ver sítios que eu desconhecia mas que Márcia deveria conhecer. “Da próxima vez, entrego o volante a Márcia e deixo que ela nos leve ao sabor do vento” pensei, ao parar o carro junto à nossa casa. O relógio do carro marcava 19:53. Assim que desliguei o carro, Márcia abraçou-me.

- Obrigado, amor. – entre beijos, foi falando – Por seres louca e por me teres feito desanuviar a cabeça durante estes dias. Por me teres feito enterrar alguns fantasmas do passado. E por seres quem és. Não sei que seria de mim sem ti.

- O que quero que fixes é que podes contar comigo para qualquer coisa. Posso não te conseguir ajudar fisicamente, mas dou-te colo e carinho e não te deixo sozinha. Da mesma maneira que me ajudaste quando eu entrei na empresa e me senti assoberbada e achei que tinha que dar o litro ao ponto de nem sequer comer nada de jeito1, eu posso dar-te amor, aconchego e ser o teu porto seguro.

Ela abraçou-me com muita força e, quando me largou, vi que tinha os olhos brilhantes, tal como os meus. Demos um longo beijo, após o qual saímos do carro e começámos a descarregar a nossa bagagem para casa.



1- ver "Problema de nutrição"

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